... Recordações ...

06/05/2015 17:30

Nossa mente vive nos surpreendendo: de repente surgem lembranças, que afloram de um nada, e aparecem, com toda a potência e minúcias.  Eu estava fazendo um trabalhinho de crochet e de repente veio –me à  mente, a figura tão querida da dona Emília Lopes, esposa do “seu” Zemicindo, mãe dos nossos companheiros Ênio e Sonia Lopes.

A dona Emília era muito tímida; foi nossa aluna em todos os cursos que demos, mas não me lembro de uma pergunta que tenha feito, ao contrário do seu esposo, que era muito perguntador e falante.

Lembro-me de seu tom grave de voz, que quase nunca se ouvia, a não ser para um cumprimento educado. Nas aulas, reuniões, encontros, ele sempre ficava silenciosa. Se não me falha a memória, durante todos os anos que frequentava os nossos cursos, ela fez apenas um evangelho na aula, creio que apenas para dar-me uma satisfação.

Era assim séria, calada, mas nas raras vezes em que dava um sorriso, era um sorriso doce, que lhe iluminava o rosto.

A dona Emília fazia o crochet mais perfeito que eu já vira: podia-se procurar falhas, era inútil. Ela era responsável pelo crochet do artesanato: ensinava, para quem queria, com muita paciência, e os trabalhos de mais responsabilidade, mais refinados, era ela que fazia.

Uma vez, levei uns panos de prato para casa, para fazer os bicos de crochet . Ela deu-me umas amostras de bicos e lá fui eu, feliz, fazer o meu crochezinho. Quando terminei a pilha de meia dúzia de panos e fui devolvê-los, feliz, mostrei a ela o meu trabalho. Ela os olhou num soslaio, e disse com uma segurança espantosa: “ os seus pontos são muito abertos, precisa apertá-los mais”.

Não é preciso dizer que fiquei decepcionada com o meu trabalho. E perguntei-lhe se ela achava que eu devia desmanchá-lo. Tenho certeza de que, nesta hora, ela teve pena de mim, e suavizou a crítica: ”deixa prá lá”, mas também sei que ela desmanchou o trabalho e o refez.

 Até hoje, quando faço crochet de linha, especialmente linha de seda, cujos pontos escorregam, me lembro da sua lição singela: apertar mais os pontos e refaço alguns pedaços em que os pontos estão largos.

Mas a lição que aprendi neste singelo episódio foi a revelação de um lado, até então desconhecido dela. Ela que era tímida até para encarar um olhar, em relação àquilo que sabia e fazia perfeitamente, era firme e sincera, corrigia sem perder a doçura e compreendendo o lado humano de quem errara ou fizera mal feito.

Querida dona Emília, onde estiver receba o meu carinho, o meu amor, e a minha gratidão  por ter-me ensinado, com a sua vida inteira, tantas e tão ricas lições. E que Deus a abençoe com Luz e Paz.

 

Abraço a todos!