O elevador...

09/01/2015 16:47

Quando cursei a USP, entre 58 e 61, ainda era na Rua Maria Antonia, a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Eram apenas quatro andares, que comportavam os cursos de Letras ( Classicas, Neo latinas e Anglo germânicas) além dos cursos de Psicologia, Pedagogia, História, Geografia, Filosofia, Matemática, Física, Química, Biologia, e não me lembro de mais nenhum, mas eram os cursos que formavam licenciados para dar aulas nos cursos ginasial e colegial.

O quarto e último andar era onde havia o anfiteatro e departamento de língua grega, cujo chefe era o prof. Robert Aubreton, francês, que quase não falava português. Os livros, de textos, gramáticas, dicionários eram todos em grego e francês.

 Os quatro andares até o departamento, eram escalados, de quatro em quatro pelo prof Aubreton, que subia tudo, como num galope. Ninguém conseguia acompanhá-lo na subida.  Havia só um pequeno elevador, nos fundos do prédio, que quase ninguém usava.

Em março de 1962, o prof assistente José Cavalcanti, foi defender a sua tese de Mestrado ( naquele tempo, o mestrado também exigia uma tese).

Eu já era casada, tinha concluído o curso em fim de 61, mas não podia perder a tese de tão querido professor. Abalei-me de Mogi para São Paulo, já grávida de oito meses. Contudo, ao chegar diante daqueles quatro andares de escada, desanimei e dando a volta fui para os fundos do prédio, onde havia o pequeno elevador.

 Entrei com alívio no elevador, seguida de um distinto senhor, que levava um guarda-chuva fechado e de um boy, de entregas. O elevador era daqueles com portas sanfonadas, de ferro, que deixavam, à mostra, as paredes entre os andares.

Ao começar a subir, o elevador deu uns trancos, e de repente estacionou entre dois andares: só se viam paredes brancas e mais nada.

O senhor distinto ficou tão nervoso, que com o guarda-chuva, cutucava as paredes, e gritava muito. O boy sentou-se no piso do elevador e lá ficou esperando. E eu permaneci ali, em pé, esperando que alguém ouvisse os gritos do senhor e viesse nos acudir. Apenas conferia o horário, no meu relógio, pensando em que parte já estaria o professor Cavalcanti na sua tese.

Depois de muito tempo o senhor cansou-se de gritar e se desesperar. Eu queria acalmá-lo, mas ele não ouvia ninguém. Até que, exausto, encostou-se num canto e permaneceu ali, de olhar parado, pensando.

Enquanto esperava eu também orava, para manter-me calma e não afetar meu filho. Depois de quase três horas, eu ali, em pé, parada, muito cansada, começou a ouvir-se um vozerio: era a apresentação da tese que havia terminado e como no quarto andar o elevador não ficava tão oculto, o senhor criou ânimo e começou a gritar de novo.

Desta vez ele foi ouvido e chamaram o Bronze, pessoa querida de todos os alunos, que quebrava todos os nossos “galhos”; ele, muito musculoso, puxou à mão o elevador até um andar onde fosse possível abrir a porta.

Da tese do professor Cavalcanti ficou apenas a lembrança desse episódio da minha vida. Mas aprendi algumas coisas: que não adianta o desespero, na hora certa, sempre vem o auxílio e que mantendo-nos calmos, em oração, conseguimos passar pelos  problemas que nos afligem sem maiores danos. É preciso confiar sempre!

 Um abraço a todos...